Em seu livro O que Jesus quis dizer (Rocco, 2007), analisando traduções do Novo Testamento, Garry Wills critica conservadorismos e formalismos que não captam a força da mensagem de Jesus no texto grego original. Como Nietzsche observou (com desprezo), Deus, quando decidiu escrever, optou pelo grego não clássico, pela koiné, a linguagem dos comerciantes e cobradores de impostos, conhecida naquele tempo, na Palestina. O grego do Evangelho não é o de Platão... mas o do povão!
Nesse sentido, a linguagem evangélica não é elegante nem religiosa. Carece de solenidade, embora o espanto sagrado e a reverência pela intervenção divina na vida humana estejam presentes.
Um exemplo. Jesus ressuscitado, no mesmo dia em que saiu do túmulo, encontra dois discípulos no caminho entre Jerusalém e Emaús (cf. Lc 24, 13-25), e lhes pergunta (em aramaico, naturalmente) por que parecem tão tristes. Estes, não o reconhecendo, relatam o fracasso do Nazareno. Quando Jesus lhes dirige a palavra, os chama de "néscios" ou, segundo outras traduções, "estultos" ou "sem inteligência", dependendo da edição.
A palavra grega é ἀνόητοι (anóetoi), e requer tradução atualizada. Jesus os chamou de "desmiolados", "tapados", "bobos" ou "lesados". E os dois não se ofenderam porque o tom de voz carregava um misto de carinho e perplexidade. No original, por se tratar de um vocativo, há a letra ômega — Ὦ ἀνόητοι —, indicando espanto, ironia, solidariedade etc.
Para esta passagem proponho a seguinte retradução: "Ah, seus tapados..."!
